O Disco das Horas 豆瓣
Romulo Fróes
类型:
拉丁
发布日期 2018年6月8日
出版发行:
YB Music
Em 2011, o compositor e intérprete paulistano Romulo Fróes afirmava que sua geração era uma “das melhores da história da MPB”. Na época, lançava o quarto álbum solo, “Um labirinto em cada pé”, que, como os anteriores, suscitaria elogios da crítica, mas alcançaria público restrito. Alguns companheiros de geração, como a banda Metá Metá, ainda promoviam seus primeiros disco, enquanto nomes que viriam a se tornar imensamente populares, como Criolo, eram descobertos.
Muita coisa mudou desde então. Na voz de Elza Soares, “A mulher do fim do mundo”, composição de Romulo com letra da mulher, Alice Coutinho, aproximou os artistas de um público inédito, disseminando-se a ponto de virar de hino feminista a tema de comercial de marca de perfumes. O Metá Metá lota o Circo Voador algumas vezes por ano e artistas como Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz atingiram público vasto.
Foto: Divulgação
'Hoje sou um artista absolutamente reconhecido, assim como minha geração, que deu contribuições muito diversas e importantes à música do país'
A perspectiva de Romulo Fróes, que faz 47 anos mês que vem, também não é mais a mesma. “Acho que, naquela época, eu dizia essas coisas por um desejo de reconhecimento de juventude. Ficava bastante irritado ouvindo pessoas dizendo que a MPB tinha morrido, enquanto ignoravam muitos trabalhos bons. Mas isso mudou completamente”, garante. “Hoje sou um artista absolutamente reconhecido, assim como minha geração, que deu contribuições muito diversas e importantes à música do país. Nem o Brasil e nem a canção brasileira são mais os mesmos”.
Uma nova página dessa história surgiu na semana passada, quando saiu “O disco das horas”, o oitavo de carreira e que está disponível em sites de streaming e para download no site do artista. Assim como acontece desde “Calado”, de 2004, o álbum mantém a parceria com o artista plástico e escritor Nuno Ramos (de quem Romulo foi assistente), que escreveu as letras. O músico e também artista plástico Eduardo Climachauska, que sempre colaborou com a dupla, desta vez aparece somente em uma faixa.
A proposta do disco continua a ser, de acordo com Romulo, a que ele declarou na contracapa de “No chão sem o chão”, de 2009: buscar “novos caminhos para a canção brasileira”. Para manter-se inovador, pela primeira vez uma obra do artista consagra-se a um tema único e bem delimitado: o amor.
Nuno Ramos diz que imaginou duas pessoas em um espaço indeterminado, que pode ser um quarto de hotel, ou então também um lugar anterior ou posterior à vida. “O amor entre elas está na frente de tudo”. O autor compara a abordagem à de “Sermões” (Iluminuras, 2015), seu mais recente livro, que o crítico Edson Cruz definiu como permeado por “o sexo, o cio, a loucura e o frenesi da carne”. Ou, nas palavras do próprio Romulo, “um casal para além da vida e além do mundo, se amando e trepando em um hotel abandonado, como se fugindo do cotidiano arrasador contemporâneo”.
A gênese das letras remonta a uma manhã à toa no aeroporto de Roma, onde Nuno fazia escala para voltar ao Brasil. Entre as seis da manhã, quando pisou na capital italiana, e a chegada do avião 15 horas depois, foram criadas oito letras, cada uma delas batizada como uma hora (“A primeira hora”, “A segunda hora”, etc). Outras cinco se somaram depois, totalizando 13 horas.
Em um e-mail de convite para o projeto que enviou para o compositor dias depois de pousar, Nuno referiu-se do seguinte modo aos versos que criara: “Acho que deve ser supercomplicado pra musicar. Tentei manter um ritmo, (mas nem tantas rimas), para ajudar. Às vezes quebrei, pra deixar você à vontade pra mudar/cortar/ refazer, repetir etc. Talvez sejam ‘elevadas’ demais pra dar boa canção , não sei — mas acho que vale tentar. Canção de amor pode tudo. Seria um disco só de canções de amor”.
Apesar do caráter que Nuno descreve como “literário” das letras, Romulo diz ter mudado só um pronome “que formava um cacófato”. O músico ressalta que a criação de melodias a partir de versos já existentes é algo que acontecera “pouquíssimas vezes” antes em sua carreira, com o processo de composição geralmente seguindo o caminho inverso. Ele afirma que isso “leva a canção para outro lugar, contida pela métrica”.
Para adaptar a linguagem à música, Romulo recorreu ao universo das orquestras brasileiras das décadas de 1940 e 1950. A inspiração maior é a “santíssima trindade de seu pai”: os álbuns de Jamelão com a Orquestra Tabajara cantando Lupicínio Rodrigues. Os arranjos do álbum, que contou com produção de Thiago França (saxofonista do Metá Metá), são repletos de sopros, que em algumas faixas chegam a oito naipes.
A produção lapidada do álbum orgulha o artista, que observa que algumas gravações chegam a ter 12 instrumentos. Ele comenta que “esse não é um disco tímido, mas de indústria”. Essa envergadura se torna ainda mais impressionante quando se pensa na restrição das fontes de renda para um músico independente. De acordo com ele, , que diz se sustentar sobretudo fazendo produção de discos (no momento, trabalha no novo álbum de inéditas de Jards Macalé, ao lado de Kiko Dinucci, guitarrista do Metá Metá, e do baterista Thomas Harres) e curadoria de festivais, os mais de 2 milhões de reproduções de “A mulher do fim do mundo” na voz de Elza no Spotify o renderam pouco mais de 60 reais.
Assim como o maior sucesso que compôs, duas músicas do novo disco de Elza, “Deus é mulher’, também são parceria de Romulo com Alice Coutinho: “Eu quero comer você” e “Língua solta”. Em relação a diferenças entre o novo álbum da cantora e ”A mulher do fim do mundo”, o compositor diz que agora estamos “vivendo o momento da hashtag: as letras não têm mais nuance ou abstração, mas são ditas de modo direto e literal”. Essa literalidade, ele afirma, “não diminui a obra, que tem músicas maravilhosas”, mas o que o move como artista é “ampliar os significados para além do que já está dado. O mundo pode estar uma droga, mas dá para falar do que não é tão óbvio”.
O artista diz ainda que não se preocupa se seu álbum terá recepção parecida com a dos artistas para quem compõe ou produz. Para ele, “‘A mulher do fim do mundo’ talvez seja canção deste século”, mas, se estivesse em um álbum seu, “nunca teria ganhado esse sentido massificado ou virado hino”. O sucesso da faixa e do disco, assim como os de Caetano com a banda Cê e os mais recentes de Gal Costa, entre outros, mostram-no contudo que sua geração “é capaz de se comunicar com mais gente. Se ela não o faz sempre, é por questão de mercado e indústria. Quando se mete com outros artistas e fura o bloqueio, no entanto, isso muda”.
Muita coisa mudou desde então. Na voz de Elza Soares, “A mulher do fim do mundo”, composição de Romulo com letra da mulher, Alice Coutinho, aproximou os artistas de um público inédito, disseminando-se a ponto de virar de hino feminista a tema de comercial de marca de perfumes. O Metá Metá lota o Circo Voador algumas vezes por ano e artistas como Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz atingiram público vasto.
Foto: Divulgação
'Hoje sou um artista absolutamente reconhecido, assim como minha geração, que deu contribuições muito diversas e importantes à música do país'
A perspectiva de Romulo Fróes, que faz 47 anos mês que vem, também não é mais a mesma. “Acho que, naquela época, eu dizia essas coisas por um desejo de reconhecimento de juventude. Ficava bastante irritado ouvindo pessoas dizendo que a MPB tinha morrido, enquanto ignoravam muitos trabalhos bons. Mas isso mudou completamente”, garante. “Hoje sou um artista absolutamente reconhecido, assim como minha geração, que deu contribuições muito diversas e importantes à música do país. Nem o Brasil e nem a canção brasileira são mais os mesmos”.
Uma nova página dessa história surgiu na semana passada, quando saiu “O disco das horas”, o oitavo de carreira e que está disponível em sites de streaming e para download no site do artista. Assim como acontece desde “Calado”, de 2004, o álbum mantém a parceria com o artista plástico e escritor Nuno Ramos (de quem Romulo foi assistente), que escreveu as letras. O músico e também artista plástico Eduardo Climachauska, que sempre colaborou com a dupla, desta vez aparece somente em uma faixa.
A proposta do disco continua a ser, de acordo com Romulo, a que ele declarou na contracapa de “No chão sem o chão”, de 2009: buscar “novos caminhos para a canção brasileira”. Para manter-se inovador, pela primeira vez uma obra do artista consagra-se a um tema único e bem delimitado: o amor.
Nuno Ramos diz que imaginou duas pessoas em um espaço indeterminado, que pode ser um quarto de hotel, ou então também um lugar anterior ou posterior à vida. “O amor entre elas está na frente de tudo”. O autor compara a abordagem à de “Sermões” (Iluminuras, 2015), seu mais recente livro, que o crítico Edson Cruz definiu como permeado por “o sexo, o cio, a loucura e o frenesi da carne”. Ou, nas palavras do próprio Romulo, “um casal para além da vida e além do mundo, se amando e trepando em um hotel abandonado, como se fugindo do cotidiano arrasador contemporâneo”.
A gênese das letras remonta a uma manhã à toa no aeroporto de Roma, onde Nuno fazia escala para voltar ao Brasil. Entre as seis da manhã, quando pisou na capital italiana, e a chegada do avião 15 horas depois, foram criadas oito letras, cada uma delas batizada como uma hora (“A primeira hora”, “A segunda hora”, etc). Outras cinco se somaram depois, totalizando 13 horas.
Em um e-mail de convite para o projeto que enviou para o compositor dias depois de pousar, Nuno referiu-se do seguinte modo aos versos que criara: “Acho que deve ser supercomplicado pra musicar. Tentei manter um ritmo, (mas nem tantas rimas), para ajudar. Às vezes quebrei, pra deixar você à vontade pra mudar/cortar/ refazer, repetir etc. Talvez sejam ‘elevadas’ demais pra dar boa canção , não sei — mas acho que vale tentar. Canção de amor pode tudo. Seria um disco só de canções de amor”.
Apesar do caráter que Nuno descreve como “literário” das letras, Romulo diz ter mudado só um pronome “que formava um cacófato”. O músico ressalta que a criação de melodias a partir de versos já existentes é algo que acontecera “pouquíssimas vezes” antes em sua carreira, com o processo de composição geralmente seguindo o caminho inverso. Ele afirma que isso “leva a canção para outro lugar, contida pela métrica”.
Para adaptar a linguagem à música, Romulo recorreu ao universo das orquestras brasileiras das décadas de 1940 e 1950. A inspiração maior é a “santíssima trindade de seu pai”: os álbuns de Jamelão com a Orquestra Tabajara cantando Lupicínio Rodrigues. Os arranjos do álbum, que contou com produção de Thiago França (saxofonista do Metá Metá), são repletos de sopros, que em algumas faixas chegam a oito naipes.
A produção lapidada do álbum orgulha o artista, que observa que algumas gravações chegam a ter 12 instrumentos. Ele comenta que “esse não é um disco tímido, mas de indústria”. Essa envergadura se torna ainda mais impressionante quando se pensa na restrição das fontes de renda para um músico independente. De acordo com ele, , que diz se sustentar sobretudo fazendo produção de discos (no momento, trabalha no novo álbum de inéditas de Jards Macalé, ao lado de Kiko Dinucci, guitarrista do Metá Metá, e do baterista Thomas Harres) e curadoria de festivais, os mais de 2 milhões de reproduções de “A mulher do fim do mundo” na voz de Elza no Spotify o renderam pouco mais de 60 reais.
Assim como o maior sucesso que compôs, duas músicas do novo disco de Elza, “Deus é mulher’, também são parceria de Romulo com Alice Coutinho: “Eu quero comer você” e “Língua solta”. Em relação a diferenças entre o novo álbum da cantora e ”A mulher do fim do mundo”, o compositor diz que agora estamos “vivendo o momento da hashtag: as letras não têm mais nuance ou abstração, mas são ditas de modo direto e literal”. Essa literalidade, ele afirma, “não diminui a obra, que tem músicas maravilhosas”, mas o que o move como artista é “ampliar os significados para além do que já está dado. O mundo pode estar uma droga, mas dá para falar do que não é tão óbvio”.
O artista diz ainda que não se preocupa se seu álbum terá recepção parecida com a dos artistas para quem compõe ou produz. Para ele, “‘A mulher do fim do mundo’ talvez seja canção deste século”, mas, se estivesse em um álbum seu, “nunca teria ganhado esse sentido massificado ou virado hino”. O sucesso da faixa e do disco, assim como os de Caetano com a banda Cê e os mais recentes de Gal Costa, entre outros, mostram-no contudo que sua geração “é capaz de se comunicar com mais gente. Se ela não o faz sempre, é por questão de mercado e indústria. Quando se mete com outros artistas e fura o bloqueio, no entanto, isso muda”.